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Segurança

Um guia simples para não cair em golpes online

Tenho visto muita gente cair em golpes que dava para evitar. E quase nunca é gente distraída ou ingênua. Costuma ser alguém esperto, num dia corrido, que recebeu a mensagem certa na hora errada.

O que mais me chama atenção é que quase ninguém foi "hackeado". Ninguém invadiu o celular de ninguém. O golpista simplesmente conversou com a pessoa e a convenceu a fazer o serviço por ele, passando um código, clicando num link ou fazendo um Pix.

A parte boa é que isso dá para aprender a reconhecer. Escrevi este texto para quem não entende de tecnologia e não precisa entender. Vou contar como o golpe funciona, quais são os que mais aparecem hoje, o que dá para configurar em dez minutos e o que fazer se já for tarde demais. No meio do caminho tem um quiz curto para você testar o seu radar.

O golpista não quer invadir você, quer conversar com você

Quase todo golpe segue a mesma receita, que tem até nome, engenharia social. Em vez de quebrar uma senha, o criminoso engana uma pessoa. E para isso ele aperta um botão emocional, quase sempre um destes quatro.

O primeiro é a pressa, com frases como "sua conta será bloqueada em dez minutos". O segundo é o susto, uma compra que você não fez ou um parente em perigo. O terceiro é a autoridade, alguém dizendo que é do banco, da polícia ou da Receita. E o quarto é a vantagem, um dinheiro esquecido, um investimento que rende demais.

Se uma mensagem mexeu com você, seja pela pressa, pelo susto ou pela empolgação, pare um minuto antes de responder. Esse minuto desmonta a maioria dos golpes, porque quem é de verdade aceita esperar você conferir.

Os golpes que mais aparecem por aí

Os detalhes mudam o tempo todo, mas quase tudo é variação de seis histórias.

A falsa central do banco

Alguém liga ou manda mensagem dizendo que é do seu banco. Tem uma compra estranha no seu cartão, sua conta foi invadida. A pessoa sabe seu nome e às vezes até parte dos seus dados, que vazaram em outros lugares, e isso convence. Aí vem o pedido. Faça um Pix para uma "conta segura", instale um aplicativo ou diga o código que acabou de chegar.

Banco nenhum pede senha, nem código de SMS, nem que você transfira dinheiro para proteger a conta. Se isso aconteceu, desligue e ligue você mesmo para o número que está atrás do cartão. Se puder, use outro telefone, porque o golpista às vezes deixa a linha presa e finge que a ligação caiu.

O WhatsApp clonado e o "mudei de número"

Esse tem duas versões. Na primeira, alguém usa a foto de um parente seu, escreve de um número novo e diz que trocou de telefone. Pouco depois pede um Pix urgente. Na segunda, o criminoso rouba o WhatsApp da própria pessoa. Ele liga fingindo ser de uma empresa e pede um código que chegou por SMS. Esse código é a chave para abrir a sua conta em outro aparelho, e dali em diante ele fala com os seus contatos como se fosse você.

Código de verificação não se passa para ninguém, nunca. E se um parente pedir dinheiro por mensagem, ligue para o número antigo dele ou faça uma chamada de vídeo antes de pagar.

O link que chega por SMS ou email

"Seu pacote está retido, pague a taxa." "Multa de trânsito." "Seu CPF está irregular." O link leva a uma página igualzinha à verdadeira, que pede dados do cartão, senha ou CPF. Costuma vir de um remetente desconhecido, com link encurtado, um errinho de português e muita pressa.

Não clique. Abra o aplicativo ou digite o endereço do site você mesmo e veja se a pendência existe. Se falam de uma encomenda, pergunte para a loja onde você comprou.

A loja falsa e o anúncio bom demais

Um tênis de marca pela metade do preço num anúncio das redes sociais. Ou um vendedor de site de classificados que quer combinar o Pix fora da plataforma. O site foi criado semana passada e só aceita Pix ou boleto.

Antes de comprar, pesquise o nome da loja junto com a palavra "golpe" ou "reclamações" e veja se o site mostra CNPJ e contato de verdade. Sempre que der, pague no cartão de crédito, que permite contestar a compra, e use o pagamento da própria plataforma.

O investimento e o dinheiro fácil

"Dobre seu dinheiro." "Ganhe por dia curtindo vídeos." Um famoso recomendando uma aplicação, muitas vezes num vídeo falso. Às vezes é uma amizade ou um romance online que cresce por semanas e termina num pedido de dinheiro.

Retorno alto, rápido e garantido não existe. Pesquise se a empresa é autorizada pela CVM ou pelo Banco Central, desconfie de quem pede pagamento antes de você receber qualquer coisa e nunca mande dinheiro para quem você só conhece pela internet.

A voz de um parente que não é ele

Hoje existem programas que imitam a voz de uma pessoa com poucos segundos de áudio, como o de um vídeo nas redes sociais. Há relatos de golpes com ligações de um "filho preso" ou de um "neto em apuros", com uma voz bem parecida, pedido de segredo e dinheiro na hora.

Desligue e ligue de volta para o número que você já conhece. E combine com a família uma palavra secreta, que só vocês sabem, para casos de emergência. Leva um minuto para combinar.

Mais dois cuidados que valem para qualquer pagamento. Antes de confirmar um Pix ou um boleto, confira no aplicativo o nome de quem vai receber. E desconfie de QR Code colado em lugar público, porque um adesivo falso pode estar por cima do verdadeiro.

Quiz · 2 minutos

Isto é golpe ou não?

Vou mostrar oito mensagens e ligações parecidas com as que chegam todo dia. Algumas são golpe, outras são normais. Sua missão é dizer qual é qual. Depois de cada resposta eu explico o que entregava o jogo.

  • 8situações
  • 2 minpara responder
  • 0dados enviados

As mensagens são inventadas para o quiz. Suas respostas ficam só no seu navegador.

Cinco hábitos que valem mais do que decorar golpes

Golpe novo aparece toda semana, então decorar não adianta. Estes cinco hábitos funcionam até contra os que ainda nem foram inventados.

  1. Desconfie da pressa. Quem é de verdade aceita esperar você conferir.
  2. Não compartilhe códigos. O que chega por SMS, email ou aplicativo é só seu, e nenhuma empresa séria pede para você repetir.
  3. Não clique, abra você mesmo. Se a mensagem fala do seu banco ou de uma entrega, abra o aplicativo ou digite o endereço do site.
  4. Confirme por outro caminho. Se alguém pede dinheiro ou dados, ligue usando um número que você já tinha, nunca o que veio na mensagem.
  5. Use senhas fortes e diferentes, com verificação em duas etapas. Assim, se uma senha vazar, as outras contas continuam protegidas.

O que dá para configurar hoje, em dez minutos

Pegue o celular e faça agora. Se você mora com alguém, peça para a pessoa fazer junto.

  • Ative a confirmação em duas etapas do WhatsApp. Vá em Configurações, depois Conta, depois Confirmação em duas etapas, e crie um PIN de seis dígitos. Com ele, mesmo que um golpista consiga o código do SMS, não entra na sua conta. E o PIN você não conta para ninguém.
  • Proteja o seu email principal com uma senha só dele e verificação em duas etapas. Ele recupera todas as outras contas, então é o que mais vale proteger.
  • Se puder, use um aplicativo autenticador em vez de SMS. O CERT.br, que cuida da segurança na internet no Brasil, recomenda isso porque o chip do celular pode ser clonado ou trocado por golpistas. SMS ainda é melhor do que nada.
  • Deixe o gerenciador de senhas do próprio celular criar e guardar senhas longas e diferentes para cada site. Você não precisa decorar nenhuma.
  • Diminua o limite do Pix no aplicativo do banco, por transação e à noite. O padrão para pessoas físicas costuma ser de R$ 1.000 no período noturno, e dá para baixar. Limite pequeno transforma um golpe grande em um golpe pequeno.
  • Ligue os alertas de movimentação, para receber uma notificação a cada Pix e cada compra. Se algo estranho acontecer, você percebe no mesmo minuto.
  • Baixe aplicativos só da loja oficial, mantenha o celular atualizado e nunca instale um programa de acesso remoto que alguém pediu por telefone.
  • Deixe as redes sociais privadas e não poste foto de documento, boleto, passagem ou cartão. Quanto mais o golpista sabe de você, mais convincente ele fica.

E se você caiu?

Respire. A pressa agora joga a seu favor, então vá na ordem.

  1. Ligue para o banco pelo canal oficial e diga que foi vítima de golpe. Peça para acionar o MED, o Mecanismo Especial de Devolução do Pix, que é o procedimento do Banco Central para tentar recuperar o valor. Você tem até 80 dias, mas quanto antes agir, maior a chance de o dinheiro ainda estar na conta do golpista. A devolução não é garantida.
  2. Troque as senhas, começando pelo email e pelo banco, e encerre as sessões abertas. Faça isso de um aparelho que você sabe que está seguro.
  3. Se foi o WhatsApp, instale de novo no seu aparelho com o seu número para retomar o controle, ative a confirmação em duas etapas e avise os seus contatos por outro meio.
  4. Se foi o cartão, peça o bloqueio e conteste as compras que você não fez.
  5. Guarde as provas e registre um boletim de ocorrência. Prints, comprovantes, telefones, links e conversas ajudam. Dá para fazer na delegacia eletrônica do seu estado, e o banco costuma pedir.
  6. Se o banco se recusar a ajudar, reclame no consumidor.gov.br e no Procon.

Cuidado com o segundo golpe. Quem promete recuperar o seu dinheiro mediante um pagamento adiantado quase sempre é o mesmo tipo de criminoso. E não sinta vergonha. Golpistas treinam todos os dias e enganam gente muito esperta. Contar o que aconteceu ajuda a proteger outras pessoas.

Se você tem um negócio

Pequenos negócios também são alvo, só que com outros roteiros. Um cliente manda um comprovante de Pix falso. Um "fornecedor" avisa por email que mudou de conta. Alguém usa a senha de um funcionário que já saiu da empresa.

  • Confira se o dinheiro entrou na conta, e não só se o comprovante chegou.
  • Se um fornecedor avisar que mudou de conta, confirme por telefone, num número que você já tinha.
  • Dê um login para cada pessoa no sistema e desative o de quem sai no mesmo dia.
  • Ative a verificação em duas etapas no email, no sistema, no registro do domínio e na hospedagem do site.
  • Faça cópia de segurança dos dados e guarde fora do computador em que você trabalha.

Se o seu site ou sistema já tem alguns anos, leia também sinais de que seu sistema está prestes a quebrar, que fala dos riscos de deixar a manutenção para depois.

Mande para quem você ama

Se você tem pais ou avós que usam celular, mande este texto para eles. Melhor ainda, sente ao lado e faça junto a configuração do WhatsApp e do Pix, porque muitos golpes miram justamente quem tem menos intimidade com a tecnologia. E para lembrar de tudo em seis linhas.

  • Pressa é sinal de golpe.
  • Código recebido não se compartilha, com ninguém.
  • Não clique no link, abra o aplicativo ou o site você mesmo.
  • Pediram dinheiro por mensagem? Ligue antes de pagar.
  • Ganho fácil e garantido não existe.
  • Caiu? Ligue para o banco na hora, pelo canal oficial.

De onde tirei as informações

Usei a Cartilha de Segurança para Internet, do CERT.br, e as perguntas e respostas do Banco Central sobre o MED. Regras do Pix e dos bancos mudam com o tempo, então confira os detalhes no aplicativo do seu banco.

Tem um site ou sistema e quer saber se ele está seguro?

Me conta como ele funciona hoje. A gente olha juntos os pontos mais frágeis e define o que vale corrigir primeiro.

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